Política

Lula e Trump tentam reaproximação após meses de crises diplomáticas e tensões comerciais

Divulgação

Depois de um período marcado por trocas de críticas, sanções, disputas comerciais e episódios de desgaste diplomático, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump se reúnem nesta semana em Washington em uma tentativa de reconstruir pontes entre Brasil e Estados Unidos.

O encontro acontece em meio a uma relação bilateral instável desde o retorno de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025. Logo no primeiro dia de mandato, o republicano já sinalizava o tom da relação ao afirmar que os laços com o Brasil seriam “ótimos”, mas deixando clara a posição de superioridade americana ao declarar: “Eles precisam mais de nós do que precisamos deles”.

Desde então, a relação entre os dois países atravessou uma sequência de episódios delicados. O governo americano passou a criticar publicamente o processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, impôs tarifas comerciais ao Brasil, sancionou o ministro do STF Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky e abriu investigações comerciais contra o país.

Apesar das tensões, os governos tentaram reduzir o desgaste diplomático nos últimos meses. Um dos primeiros sinais de distensão ocorreu durante a Assembleia-Geral da ONU, quando Trump afirmou ter uma “excelente química” com Lula após um breve encontro entre os dois líderes.

Segurança e economia estarão no centro da reunião

A expectativa é que o encontro em Washington tenha como foco principal temas ligados à segurança pública e à economia.

O governo brasileiro pretende apresentar uma proposta de cooperação no combate ao tráfico internacional de armas, lavagem de dinheiro e crime organizado. Um dos temas mais sensíveis da pauta envolve a possibilidade de os Estados Unidos classificarem facções brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho, como organizações terroristas.

A medida abriria caminho para uma cooperação mais agressiva entre os países na área de segurança, mas também pode gerar conflitos diplomáticos e jurídicos com o Brasil, que tradicionalmente evita essa classificação formal.

Outro ponto importante da reunião envolve as investigações abertas pelo governo Trump com base na Seção 301, mecanismo utilizado pelos Estados Unidos para apurar práticas consideradas desleais no comércio internacional.

Tarifas e investigação comercial aumentaram tensão

As relações comerciais entre os dois países sofreram forte desgaste após os Estados Unidos anunciarem tarifas de 50% sobre produtos brasileiros em julho do ano passado.

Na ocasião, a Casa Branca justificou a medida alegando “perseguição política”, “censura” e “abusos de direitos humanos” relacionados aos processos envolvendo Jair Bolsonaro e seus aliados.

Além das tarifas, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) abriu investigação contra o Brasil envolvendo temas como Pix, etanol, pirataria e até a Rua 25 de Março, em São Paulo.

O processo ainda não foi concluído e pode resultar em novas sanções comerciais ao país.

Caso Moraes agravou crise diplomática

Outro episódio que elevou a tensão bilateral foi a sanção aplicada ao ministro Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky, utilizada pelos EUA para punir estrangeiros acusados de violações de direitos humanos.

Na justificativa, o governo americano afirmou que Moraes teria autorizado “detenções arbitrárias” e restringido a liberdade de expressão. A sanção acabou sendo retirada em dezembro, após negociações diplomáticas.

Encontro ocorre em meio a cenário internacional delicado

Segundo fontes próximas à Casa Branca, a reunião entre Lula e Trump pode ocorrer sem a participação de integrantes do Departamento de Estado americano, o que alimentou especulações sobre divergências internas dentro do governo dos EUA.

A previsão é de participação de nomes importantes da administração Trump, como o vice-presidente JD Vance, o representante comercial Jamieson Greer, a chefe de gabinete Susie Wiles, além dos secretários Howard Lutnick e Scott Bessent.

Para o cientista político Brian Winter, o encontro ocorre em um momento considerado “misterioso”, especialmente diante das prioridades internas americanas e das crises internacionais em andamento, como os conflitos no Oriente Médio.

Segundo ele, um dos principais interesses dos Estados Unidos no Brasil atualmente envolve o acesso às chamadas “terras raras”, minerais estratégicos essenciais para os setores de tecnologia, defesa e transição energética.

Histórico recente inclui novos atritos

Mesmo após a retomada do diálogo entre os presidentes, novos episódios de tensão surgiram nos últimos meses.

Entre eles estão a negativa de visto ao conselheiro de Trump Darren Beattie, a prisão e rápida soltura do deputado Alexandre Ramagem e o desgaste envolvendo cooperação policial entre Brasil e Estados Unidos.

A relação bilateral também foi impactada pela discussão sobre o Conselho de Paz criado por Trump para a reconstrução da Faixa de Gaza, do qual o Brasil foi convidado a participar, mas ainda não confirmou adesão.

Apesar das divergências, o encontro entre Lula e Trump é visto por diplomatas como uma tentativa de reduzir atritos e abrir espaço para acordos estratégicos em áreas consideradas prioritárias para os dois governos.